quinta-feira, 4 de março de 2010

Ao guardador de livros

Nesta semana revisitei Miguilim, senti uma saudade imensa do Campo Geral, talvez porque ele me lembre a generosidade apaixonada de um jovem sábio senhor, um boiadeiro de livros, que um dia falou sobre Corpo de Baile com tanto amor, que nunca mais pude esquecer.

Diante dele, ficava pequena, e não podia ser diferente, sua presença luminosa era por demais radiante para ser captada pela minha opaca capacidade visual. Quando José Mindlin falou sobre o Corpo de Baile, na minha ignorância constrangida, demorei-me a associá-lo ao meu mais querido livro de cabeceira, Manuelzão e Miguilim. Sim, e é com muito custo que confesso, aqui, as mazelas de se saber não preparada para tão distinto interlocutor.

Desde domingo último, guardei o vazio dos que perdem referência, pois o Dito-Expedito da vida real foi passear por outras veredas, conservar ricas palavras nas prateleiras de além-sertão. Resta agora tentar viver conforme o lema de Montaigne: "não faço nada, sem alegria"(1).

Esse é o legado do boiadeiro de livros, uma vida alegre, como bem traduz seu ex libris.

Quem me dera ter uma existência tão plena e a disposição curiosa da primeira idade, mesmo depois de tantas primaveras; quem me dera viver apaixonada e fiel, com a certeza de que
"a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que
acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre,
mais alegre, por dentro!..." (2)
Eis as sábias palavras de Dito, que tanto se assemelham à postura de vida do guardador de livros.

Resta-me a esperança de, também eu, descobrir um mundo para além da miopia e conseguir entender o movimento das coisas, sem o titubear daqueles que não caminham em solo firme.


1. "le ne fay rien sans gayeté" (Montaigne, Des livres) . frase retirada do ex libris de José Mindlin.

2. Guimarães Rosa. "Campo Geral" in: Corpo de Baile. ed. comemorativa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006, vol. 1 p. 100.

terça-feira, 28 de abril de 2009

"A vida é dura pra quem é mole!"

Nasci assim: mole.
Despencando pela escada
E procurando saídas.

Não vejo sentido na vida,
Nem vejo motivo de riso,
Mas rio mesmo assim.

E por quê?
Porque tenho o riso frouxo,
E o choro fácil.

Nasci assim: mole.
Surpreendentemente maleável,
Mas sem me adaptar!

Uma moleza desconfortável,
Triste e cômica
Como a vida.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

filigranas

filigranas essenciais,
esta é a dialética do absurdo!

non-sense,
sem(s)ação:

1. boca sedenta, árida, salina;
2. batuque da alteridade;
3. frio febril no reino de Ubu;
4. monólogo do presente;
5. satisfação de Narciso;
6. miopia feliz.

filigranas desapercebidas,
como usual às filigranas.

sta bárbara varreu!

em pequenos frascos de turmalina, quero meus amores;
quero a potência do que será;
quero! agora! aqui! nestes delicados frascos de turmalina;

o perfume que cobre o ambiente deste cenário faz do filme um boticário,

mas a estrela derradeira contraria qualquer sonho de feitiço.
assim, o carnaval virou tédio! crianças, velhos!

espero o novo amanhecer primaveril;
espero doer sem sentir dor, doer de tanto amor,
na esperança de uma malandragem à-toa, tão boa.